
ENTREVISTA COM MARCIO BARALDI
Marcio Baraldi é o cartunista mais rock'n'roll do Brasil, e se bobear, do mundo! Ninguém fez, faz e publica tantos cartuns e HQs explicitamente roqueiros como ele. Cartunista de nascença, ele começou a misturar rock com desenho ainda na infância quando se converteu ao rock'n'roll após ouvir "We will rock you" do Queen num velho rádio valvulado. Dali pra frente ele entupiu cadernos e mais cadernos com desenhos, piadas e quadrinhos com bandas de rock, sobretudo o Kiss e o Queen, suas primeiras paixões roqueiras. A Rock Post visando sempre trazer entrevistas e matérias de qualidade, não poderia deixar de entrevistar uma pessoa tão versátil e talentosa como Marcio Baraldi. Confira esta super entrevista com o rockcartunista.
Rock Post: Olá Marcio, gostaria de agradecer em nome da Rock Post por esta entrevista e ficamos felizes de saber um pouco mais sobre este trabalho tão importante e divertido que você faz.
MB: Eu que agradeço, meu anjo! Beijos pra todo mundo do Rock Post ! Quem fica parado não é Post(risos)!
Rock Post: Conte-nos quando foi que você percebeu que seus cartuns poderiam fazer este enorme sucesso que fazem hoje. E como foi que você começou a fazer a divulgação deles?
MB: Eu fui percebendo passo a passo, conforme ia produzindo e publicando. Ou seja, fui percebendo o resultado da colheita conforme ia plantando. Comecei na profissão ainda adolescente e sempre quis me comunicar com as pessoas através dos meus cartuns. Não conte para ninguém, mas na verdade quando eu era adolescente eu queria mudar o mundo com meus quadrinhos(risos)! Eu tinha aquela infelicidade e revolta típica que os adolescentes tem, de não se conformarem com as coisas como elas são, e achava que meus quadrinhos seriam meu instrumento pra tentar mudar o mundo. Pra fazer minha revolução pessoal! No começo, os quadrinhos eram meu grito de guerra contra o mundo, depois virou isso e meu ganha-pão ao mesmo tempo. O pão e o grito juntos forever!
Pra divulgar meu trabalho, procurava publicá-lo em qualquer pedaço de papel que o aceitasse:fanzines, revistas, jornais, cartilhas, capas de discos, cartazes, adesivos, etc. Com a chegada da Internet, tratei de espalhá-lo pela rede também, o que multiplicou ainda mais seu alcance. Pra fechar com chave de ouro, contratei há alguns anos a super assessora de imprensa Gisele Santos que, com sua lábia irresistível, me jogou de vez na boca do povo(risos)!
Rock Post: Sabemos que seu envolvimento com o mundo do rock é um dos principais ingredientes do seu trabalho. Quais as bandas que você curtiu na adolescência e quais as que você curte hoje que te inspiram na criação dos personagens?
MB: Descobri o rock’n’roll com o maravilhoso Queen e na sequência descobri o KISS, que foram meus primeiros professores na matéria.Meus primeiros quadrinhos de rock foram com eles, ainda na puberdade. Depois descobri o Punk-rock que me influenciou muitíssimo, até o fim desta encarnação pelo menos. Estava entrando na adolescência e na profissão e com isso meu trabalho ficou mais agressivo e politizado, como manda Mestre Joe Strummer! Nos anos 80 eu publicava um personagem chamado Johnny Bastardo no Jornal Rocker, no ABC paulista (onde eu nasci), que era um garoto punk típico lá da região.
Depois, nos anos 90, criei o Roko-Loko e a Adrina–Lina, que são headbangers típicos, cabeludos e tal. Na sequência vieram o Tattoo Zinho, que é um personagem atual, moderno, cheio de piercings e tatuagens, depois vieram o Maluco e Beleza, que são aqueles roqueiros pobres da perifa que ficam tentando entrar de graça nos shows, e o Guerrilheiro da Guitarra,que retoma a linha Joe Strummer, de explodir tudo que não presta nesse mundo.
Rock Post: São vários os personagens criados por você, para diversas revistas, porém o Game Roko-Loko (o primeiro game rock´n´roll do Brasil) foi um grande sucesso e lhe rendeu prêmios. Você esperava este resultado?
MB: Não. A gente, a princípio, ia fazer o game só com uma fase e colocá-lo de graça no site da Rock Brigade, revista onde o Roko-Loko é publicado desde 1996. Mas nos empolgamos tanto que o game ficou super profissional, com três fases, e acabamos prensando e lançando comercialmente. O game chamou a atenção das revistas especializadas e acabei encartando-o em dezenas delas, e assim a tiragem do game passou de 500 mil cópias vendidas, o que nos rendeu uns discos bonitos pra pendurar na parede, tipo Roberto Carlos,sacou(risos)?!? A princípio não esperávamos essa repercussão toda, mas investimos bastante na divulgação do game e depois seguimos o andar da carruagem, deixando-a nos levar até onde desse. Sem dúvida foi uma viagem bem legal!
Rock Post: As situações relatadas em suas HQs, tirando as que incluem bandas famosas, são baseadas em situações reais de bandas underground?
MB: Mais ou menos. Minha fórmula geralmente é pegar elementos reais de cada banda, como causos, nomes de musicas, etc, e misturar com uma boa dose de imaginação, criando situações absurdas, mas que têm alguns elementos reais, o que acaba dando uma credibilidade pra história. Faz com que os leitores reconheçam na HQ, elementos familiares daquela banda. Algumas ficam tão críveis que os leitores vêm perguntar se aquilo aconteceu mesmo com a banda (risos).
Rock Post: Em outras entrevistas você já declarou que sua infância não foi tão fácil e você trabalha desde os onze anos de idade, fez várias atividades desde então e nunca teve preguiça para o trabalho. Você acredita que é esta vontade de crescer que fez você conquistar seus objetivos?
MB: Não só pra mim, mas pra qualquer pessoa! Você pode nascer paupérrimo, na favela, ficar órfão desde pequeno e mesmo assim vencer na vida. O mundo está cheio de histórias de pessoas, das mais diversas profissões, que enfrentaram todas as dificuldades possíveis e se tornaram pessoas bem sucedidas. No Rock’n’Roll, o Gene Simmons é e sempre será o maior exemplo disso. Um garoto judeu paupérrimo, fugido de Israel pós- guerra, abandonado pelo pai, criado só pela mãe num país estranho, que nunca foi um músico excelente, e mesmo assim chegou aonde chegou! O grande trunfo dele não foi seu talento para a música e sim sua inteligência e obsessão em vencer na vida! Walt Disney, Bruce Lee, Roberto Carlos, Madonna e Charles Chaplin, só pra ficar em alguns famosos, foram a mesma coisa. O sujeito que usa a pobreza como desculpa pra virar bandido ou ser um eterno pobre não passa de um covarde ou mal-caráter mesmo.
Rock Post: Você é considerado um dos melhores cartunistas do Brasil hoje, a sua versatilidade pode ter algo a ver com este título?
MB: Com certeza! Porque no Brasil o cartunista tem que ser pau pra toda obra mesmo. Não dá pra ter frescurada ou limitar muito seu raio de atuação. Nós não temos uma Indústria de quadrinhos forte e milionária como nos EUA, por exemplo, onde o cara pode ficar rico fazendo apenas uma tira a vida inteira, como o Charles Schullz, criador do Charlie Brown. Ele viveu e morreu fazendo apenas a Turma do Charlie Brown e ficou rico e famoso com isso. Já no Brasil, tirando o Mestre Maurício de Souza, que é um fenômeno único e isolado, e que provavelmente não se repetirá, nós não temos nem em sonho essa possibilidade. Aqui o cartunista sempre teve vários empregos pra sobreviver e sempre se desdobrou em quinhentos. Mesmo assim eu não reclamo de nada porque só pelo fato de ter conseguido me estabelecer nesta profissão difícil e de ter me tornado um dos nomes respeitados dentro dela, eu já fico muitíssimo feliz e grato a Deus. No Brasil, isso já é uma proeza e tanto!

Rock Post: Em uma entrevista a “Revista O Grito” você declarou que fez um trabalho de HQs informativo sobre AIDS para presidiários e que inclusive um dos detentos que desenhava muito bem o ajudou no trabalho. Pegando este gancho, como você vê a galera mais jovem hoje? Você acha que a falta de educação e de incentivo podem levar jovens como este, que tem talento, para outro caminho?
MB: É o que eu falei anteriormente. Eu na minha infância e adolescência convivi de perto com pessoas viciadas em álcool, cigarro e tudo quanto é droga que você possa imaginar. Tive amigos que viraram assaltantes, parentes traficantes. Estava tudo ali na minha mão, se eu quisesse era só pegar e entrar pra turma também. Mas, ao invés disso, eu escolhi me afastar dessas pessoas e dessas roubadas, nunca cheguei nem perto dessas coisas e nem quero. Vi muito conhecido ir preso, morrer de overdose/cirrose, ou no mínimo, atrasar muito a própria vida por conta dessas merdas. Quando eu era adolescente o meu maior desejo na vida não era me drogar, mas sim mudar o mundo e a minha vida. Desejava uma vida melhor pra mim e uma sociedade melhor pra todos. E sempre lutei por isso, e praticamente sozinho, pois não me dava bem com praticamente ninguém na minha casa, então segui meus ideais e fiz meu próprio caminho.Agora, eu acho que os jovens, independente de que geração são, terão sempre ideais e sonhos de uma vida e um mundo melhor pra lutar. Este planeta ainda está longe de ser um lar civilizado, pacífico e fraterno pra todos, ainda há muito por que lutar, então, a meu ver, a juventude de hoje precisa ter consciência disso e de sua importância na transformação dessa realidade. E nessa batalha vale tudo, vale usar o cartum, a música, o grafite, a poesia, o cinema, a literatura,enfim, tudo que a moçada gosta. E sobretudo vale usar o BOM SENSO! Vale estudar e trabalhar muito, usar camisinha sempre, ficar longe de toda espécie de roubada, enfim vale ser responsável e consciente! E pensar sempre no coletivo, no tal mundo melhor para todos! Ninguém é feliz sozinho!
Rock Post: No seu ponto-de-vista, como está o mercado nacional de HQs? Você acredita que a internet possa diminuir com o tempo este público?
MB: Já diminuiu(risos)! Assim como já diminuiu o público comprador de CDs e DVDs, os espectadores de TVs, os ouvintes das rádios, os leitores de jornais e revistas, etc.
A internet é uma revolução nas comunicações do planeta! Ela chegou e transformou tudo! Pra mim está claro que com o tempo, tudo migrará para a net.Quem sabe quantos veículos impressos ainda existirão daqui a duas décadas? A tecnologia está avançando tão rapidamente que é difícil até de prever o que acontecerá no ano que vem. Mas as HQs já estão tratando de se adaptar na internet também, há zilhões de sites e blogs sobre quadrinhos ou com quadrinhos para se ler na tela. E é tudo rápido, instantâneo, permanente e de graça. Tem suas vantagens, não amarelam, não estragam, as traças não roem.Mas é o que eu falei, como será o mundo daqui a vinte anos??? Quantos e quais hábitos do século 20, como ler gibis por exemplo, ainda sobrarão na nossa cultura??? Nem me atrevo a imaginar....
Rock Post: Gostaria de parabenizá-lo em nome da Revista Rock Post, não só pelo seu trabalho que é maravilhoso, mas também pelas iniciativas sociais e as críticas que vemos em seus trabalhos. Fique a vontade para deixar um recado para a galera.
MB: Eu que agradeço pelo espaço e pelo carinho. De uma coisa eu tenho certeza, por mais revoluções tecnológicas que ocorram no mundo, o que nunca pode acabar é o amor e a solidariedade entre as pessoas.Torço pra que a moral do ser Humano evolua no mesmo ritmo que o progresso tecnológico. Afinal, pra que vai servir um mundo cheio de TVs holográficas, pílulas de proteínas e viagens espaciais se ainda estivermos mergulhados em guerras, violência, abismos sociais e maldades cotidianas? Vamos todos deletar nossa própria estupidez e dar um upgrade no Ser Humano!Aí sim o planeta vai ganhar o selo ISO 9001 de Qualidade Universal! Deus, o inspetor de qualidade supremo, ficará orgulhoso de nós!
Sucesso e saúde a todos!
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